O Ônibus da Gentileza

gentil

Já percebeu como o ônibus que você pega para ir trabalhar pela manhã pode determinar como será o seu humor pelo resto do dia?

A gente até tenta esboçar uma simpatia logo na entrada, dando um bom dia sussurrado para o motorista enquanto é empurrado por pessoas apressadas e cheias de problemas. O cobrador fica lá, ouvindo um apito atrás do outro a cada girada da catraca, mexendo com notas, moedas, no rosto, nos olhos e cochila de vez em quando, achando que ninguém o vê no ápice do seu cansaço.

O que mais me intriga em um ônibus é onde você senta. A primeira coisa que fazemos é olhar se tem lugar para sentarmos, sozinhos é claro. Tem gente que prefere ficar de pé, a ter que dividir o banco com alguém. Até aparece os que preferem dividir o banco, mas só se for aquele alto lá no fundo.

As pessoas sentam sós, com as cabeças inclinadas na janela com olhares ora alegres, ora tristes, criando histórias com os personagens desse mundo real que acontece do lado de fora enquanto você está a bordo da locomotiva emotiva. Não posso me esquecer da trilha sonora, que começa com o ronco do motor, passando por celulares no último volume, conversas escandalosas que nos fazem conhecer todos os problemas da fulana em 10 minutos de viagem. A solução é se fechar em seu fone de ouvido, com uma música tão alta, mas tão alta, que nem chegamos a perceber que estamos cantando para um público de 40 espectadores pagantes.

Assistir de dentro o ônibus molhar alguém em um dia de chuva pode até ser engraçado. Mas e se fosse você que estivesse ali, do lado de fora, todo arrumado para uma entrevista de emprego? O outro pode ficar molhado, eu não! Ele é idoso, mas pode fica em pé, eu não!  A moça está com um bebê de colo? Bem feito, quem mandou engravidar? Quantas vezes você já viu alguém fingindo que está dormindo para não ter que encarar uma situação como essa? Será que é tão diferente da criança que quando faz besteira, finge que está doente ou cai em um sono profundo de repente?

Ainda bem que existem pessoas que acreditam que o outro e você são a mesma coisa, que podemos dividir o mesmo banco e até, quem sabe, ajudar a resolver o problema do amigo com palavras, sorrisos, abraços, dedicações musicais, e de uma forma boba e tão simples, oferecer o seu lugar nesse transporte de sensações por vontade própria e não por olhares de reprovação esperando que você tome uma atitude. Sei que é ruim não ter um sorriso retribuído. Dá trabalho, eu sei. Temos os nossos problemas sim, quem não tem?

Tente por um dia deixar o mau humor de casa em casa, resolver as pendências do trabalho no trabalho e lembrar sempre de dar uma chance do dia ser legal, mesmo com chuva.

Pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas um dia você vai precisar da gentileza de alguém. Seja como passageiro de um ônibus, pedestre na rua ou viajante nesse rolê muito louco chamado vida, eu peço por gentileza, não desista de ser gentil.

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